20/04/2025
Desde muito tempo eu carregava um desejo quase teimoso: ter um curió nascido de um cruzamento raro, daqueles que só ouvimos falar entre criadores experientes, quase como lendas sussurradas em rodas de conversa. Entre todos os cruzamentos desejados, um em especial me tirava o sono: uma cria do Futuro 414, um dos maiores repetidores da atualidade. E não só isso — eu sonhava exatamente com a combinação materna específica, por causa da linhagem única que ela carregava.
O Futuro 414 sempre foi sinônimo de expectativa. Não apenas por sua repetição admirável, mas também pelo significado escondido no próprio nome. “Futuro” vem do latim futurus, um tempo que ainda virá: o porvir, o destino, aquilo que nos espera sem que saibamos. E era exatamente assim que eu enxergava esse cruzamento — algo que ainda estava por vir, mas que parecia guiado por uma força maior.
Pelo lado paterno, o Destino 205 vem de uma linhagem impecável: seu pai e, sobretudo, seu avô paterno era máquinas de repetição. Dizem até que o avô repetia mais que o próprio pai. E eu, como todo apaixonado por canto firme e constante, alimentava a esperança de que um dia meu curió carregasse esse legado no peito.
Mas o que realmente me encanta é o lado materno. A mãe (Pro Vai 042) do cruzamento que eu tanto desejava é filha do Revelação Velho 824 (um dos melhores filhos do lendário Prorrogação Velho 065), trazendo também sangue da Estrela 011. Era uma árvore genealógica que arrepiava qualquer apreciador de curió clássico. Como se não bastasse, ela é neta do Prorrogação Velho e do Vai Vem Velho — dois ícones, duas vozes marcantes, dois pilares da repetição tradicional. Era por isso que eu sonhava com essa cruza: ela traz repetição e voz dos dois lados da árvore genealógica. Era, no meu ponto de vista, simplesmente perfeita.
E, ainda assim… praticamente inalcançável. Havia pouquíssimos exemplares dessa cruza. Quem possuía, guardava. Quem sabia que existia, não oferecia. Era raro demais até para conversar a respeito.
Meu amigo Cesinha sempre foi conhecido por seu plantel bem montado. Mas naquela tarde, fui à casa dele apenas para jogar conversa fora — nada demais. Olhamos alguns pássaros, falamos de linhagens, rimos de histórias antigas e, quando fui embora, saí sem imaginar que ali, naquele mesmo lugar, estava o curió dos meus sonhos.
Horas depois, já em casa, liguei para o Cesinha para perguntar algo que hoje nem lembro. A conversa seguiu, como sempre, para genética, cruzas e para o plantel do nosso amigo Zoim. Empolgado, comentei — talvez pela milésima vez — sobre meu desejo quase obsessivo de ter um filho do Futuro 414.
Foi então que o “destino” finalmente “falou”.
— Eu tenho um aqui — disse ele, com uma naturalidade que quase doeu. — E, se quiser, posso até dispor.
Por um instante, eu não soube se tinha ouvido direito. Ele, que jamais havia mencionado nada, tinha justamente uma das melhores cruzas do Futuro 414, e ainda estava disposto a negociar?
No dia seguinte, antes de viajar, fui ver o pássaro. E quando o vi... o coração acelerou. A postura, o olhar vivo, a estrutura… e, quando confirmei a genética, senti o ar me faltar.
Era exatamente a cruzada que eu sonhara.
A linhagem perfeita.
A mistura precisa de repetição, voz e história.
Tudo aquilo que parecia impossível estava ali, diante dos meus olhos.
Naquele instante, compreendi: aquilo não era acaso.
Era destino.
Por isso, quando o adquiri, não tive dúvida do nome: Destino 205.
Porque, no fundo, tudo parecia escrito muito antes de eu imaginar que aquele curió existia — e mais ainda, que seria meu.