A fascinante saga do "Encrenca", um ícone da genética dos curiós!

Escrito por João Júnior, baseado em vídeos e relatos de amigos criadores.

A trajetória singular de um curió lendário, carinhosamente conhecido como “Encrenca Velho”, desenhou-se a partir de seu nascimento em Joinville/SC, em 12 de março de 1996, durante a temporada de 1995/1996. Era apenas mais um filhote entre tantos, nascido do cruzamento entre a fêmea Asinha e o lendário Bugre Velho, mas carregava no peito uma força que só o tempo revelaria. Criado pelo Sr. Heinz, viu o mundo sob os olhos de quem perseguia o canto perfeito, e já em seus primeiros dias dava indícios de que não seria um pássaro comum. A voz cristalina, o andamento preciso e a fibra que pulsava viva em seu peito anunciavam que ali nascia um futuro mito.

Registrado sob o anel número 25-3-7305 95/96, esse filhote promissor embarcou em uma odisseia de transferências que, ironicamente, lhe concederia seu célebre nome. O Sr. Heinz o cedeu ao Sr. João Padeiro, de Camboriú/SC, que lhe deu o nome de Palmeirinha, para em seguida o transferir ao Sr. Tiba, que o levou para Tijucas/SC, onde completaria sua muda de pardo para preto. Foi nesse ponto que o destino, com suas curvas inesperadas, mudou a rota do curió. Acometido por uma enfermidade, o Sr. Tiba foi hospitalizado e confiou seus pássaros ao Sr. Felício, seu amigo, pedindo-lhe que repassasse as aves, exceto o Palmeirinha.

O Sr. Felício, cumpridor do encargo, dirigiu-se ao sítio em Tijucas/SC. Ao ouvir uma bela cantada de 10 samaritás do curió, após um canário pousar sobre sua gaiola, ficou profundamente impressionado. A qualidade da voz e o andamento do canto prenderam-lhe a atenção de forma imediata, levando-o a decidir adquiri-lo do Sr. Tiba, que estava resistente em passá-lo a outro criador. Apesar da relutância, o negócio foi fechado de forma parcelada, embora o pagamento sequer tivesse se iniciado. E assim, por um breve tempo, Palmeirinha habitou a casa do Senhor Felício, sem imaginar que novos desdobramentos já se alinhavam nas sombras.

Os fatos que se desenrolaram desde então ajudaram a tecer uma trama ainda mais densa. Depois da alta hospitalar, o Sr. Tiba, visitado pelo Sr. João e outros dois amigos e sob suas influências, decidiu desfazer o acordo com o Sr. Felício, considerando que ainda não havia recebido os valores prometidos. Cumprindo sua nova decisão, negociou novamente o curió, agora com o Sr. João, que o pagou à vista. O Sr. Tiba, omitindo a nova negociação e em um movimento surpreendente, orquestrou a recuperação da ave da posse do Sr. Felício, informando tê-la vendido a outro criador de São Paulo, por estar precisando urgentemente de dinheiro, enviando terceiros para buscá-lo.

O Senhor Felício, tomado pela confiança e pelo sentimento de lealdade, entregou o curió sem hesitação. Mas a paz da consciência durou pouco. Intuições começaram a gritar dentro de si, e logo veio a certeza de que a ave não havia partido para lugar algum além da casa de seu antigo dono, o Sr. João Padeiro. Sentindo-se traído e tomado por um sentimento de frustração, procurou o Sr. Renato Souza — dono do atual Criatório Prorrogação —, solicitando que este verificasse pessoalmente a situação. Chegando ao local, ao som do canto envolvente do curió que lá estava, o Sr. Renato não apenas confirmou a história, como foi arrebatado por um encantamento próprio. Ao retornar com a notícia, viu no Sr. Felício uma tristeza profunda, e entre este e o Sr. Tiba, instaurou-se um abismo silencioso. A amizade, antes firme, esgarçou-se pelas margens do ressentimento, e os dois passaram anos afastados. O episódio, marcado por ressentimentos e silêncios, daria origem ao nome definitivo do pássaro: Encrenca (denominação sugerida pelo próprio Sr. Felício, como memória viva do conflito que envolveu sua posse).

Diante daquele extraordinário talento, o Sr. Renato informou ao Sr. Felício que gostaria e ter aquele curió. Após insistentes visitas, movido pela certeza do potencial do curió, conseguiu adquiri-lo do Sr. João e o rebatizou, conforme sugerido pelo amigo Felício, com o nome que atravessaria gerações. Desde então, o nome passou a carregar não apenas a memória da disputa, mas também a identidade de um verdadeiro ícone da criação nacional. Embora o Sr. Felício tenha convivido com o pássaro por um breve período, jamais o utilizou para reprodução. Coube ao Senhor Renato esse papel. E com ele, a história começou a se desenhar com traços de epopeia.

Sob a tutela do Sr. Renato, em Itajaí/SC, o Encrenca iniciou sua prodigiosa carreira reprodutiva na temporada de 1997/1998. Contra a corrente de opiniões que temiam a perda do belo canto ao cruzá-lo, o Sr. Renato permaneceu convicto: acreditava que só os grandes são capazes de gerar o extraordinário. A primeira parceira de acasalamento do Encrenca foi a fêmea Florzinha. Naquele cruzamento, ele demonstrou sua excelência como galador, fecundando a parceira com naturalidade e destreza na grade da gaiola.

O criatório do Sr. Renato floresceu, produzindo uma miríade de filhotes que rapidamente se destacaram. Curiós como o Pintado (filho de Encrenca com Mila), que cantou precocemente aos 55 dias, e Zeus (filho de Encrenca com Pajé), que soltou o canto aos 75 dias, foram testemunhos de sua notável linhagem, sem falar no filhote da cruza “Encrenca x Estrela” que cantou aos 41 dias e cuja mãe foi adquirida do amigo Shoit. O curió Camboriú, fruto do cruzamento com a famosa Ana Cléia, conquistou o primeiro lugar no Torneio da Moca ainda na fase parda, superando aves de renome. Ao lado de Sarita, Monaliza e outras fêmeas de excelência, o Encrenca construiu uma genealogia que atravessou fronteiras. Entre 1997 e 2002, o Sr. Renato criou 173 filhotes — não apenas números, mas herdeiros de uma história singular.

Após anos de dedicação e o estabelecimento de uma reputação lendária, o Sr. Renato transferiu o Encrenca para os cuidados do Sr. Júnior, um criador apaixonado de Cascavel/PR. Esta transição, embora difícil para o Sr. Renato, foi realizada com a certeza de que a ave estaria em excelentes mãos. Em 2004, o Encrenca chegou à posse do Sr. Júnior, acompanhado da renomada fêmea Ana Cléia (anilha era 25-3-5743 94/95), filha do curió Caiçarinha com a fêmea chamada Samanta. Durante a temporada de 2004/2005, o Sr. Júnior utilizou o Encrenca em seu plantel, gerando bons filhotes. É importante notar que o curió Pavarotti, filho do Encrenca e já muito conceituado no centro-oeste, alcançou o título de Tetracampeão Mato-grossense e Vice-Campeão Brasileiro em 2004, evidenciando a precocidade e o impacto de sua prole, que já brilhava quando o pai ainda residia em Itajaí/SC.

No início da temporada seguinte, o Encrenca Velho e a Ana Cléia foram novamente repassados, desta vez ao Sr. Aparecido Gilson Gardenal, também de Cascavel. Ali permaneceram por mais duas ou três temporadas — os relatos divergem —, reproduzindo com vigor e constância. Mas o tempo, sempre implacável, trouxe consigo o fim de uma era. Na noite de 6 de abril de 2008, veio a notícia que calou os corações dos amantes da raça, pois o Encrenca Velho havia falecido. O Sr. Gilson comunicou a partida ao Sr. José Carlos Salamoni, e os últimos momentos do pássaro foram registrados em vídeo, preservando sua imagem como símbolo de excelência.

Apesar de sua morte, o Encrenca permanece vivo em sua descendência. Espalhados por todo o território nacional, seus filhos e netos continuam a encantar, especialmente no estado de Mato Grosso. Ali, criadores como o Sr. Adevaldo Castilho mantêm viva a chama da Raça Encrenca, com exemplares como Encrenca Filho, F II, Eldorado e Bugrinho Filho, além de fêmeas notáveis como Pombinha II, Verona, Malú 103, Tulipa, Americana e Ana Lú.

Seus frutos se multiplicaram em conquistas. O Campeonato Mato-grossense teve, ao longo de oito anos, vitórias consecutivas de sua prole: Pavarotti Filho, Peneirinha Neto, Simeão Neto e Guarda Belo Neto dominaram as edições de 2004 a 2008. Em 2007, o curió Jurubeba, do Sr. Luciano Marcelo Bettini, sagrou-se campeão brasileiro pela COBRAP, sendo filho de Massaranduba, cujo vínculo com o Encrenca ora se apresenta como irmão, ora como descendente direto — reflexo da vastidão e da complexidade de sua genealogia.

No universo do canto praia clássico, nomes como Professor, Muralha e Dubay trazem no sangue o selo dessa linhagem. Criadores por todo o Brasil reconhecem o valor inestimável deixado por este pássaro, cuja história, antes envolta em sombras e omissões, agora é revelada com justiça. Esse texto, buscou corrigir e sanar vários erros a respeito do Encrenca, veiculados através de histórias e vídeos incompletos. Naqueles relatos, ocultou-se que foi o Sr. Renato quem adquiriu o Encrenca quando veio da muda de pardo para preto e que foi ele quem realmente começou a criar com o Encrenca, com coragem e visão de investir em um curió que se tornou grande no cenário brasileiro. A atitude de quem ocultou tais fatos não serve de exemplo para nós criadores de curiós, pois devemos enaltecer quem investe e aprimora as raças do maravilhoso amigo do homem. Além disso, e não menos importante, segundo o Sr. Renato, à época muitos curiós da raça do Encrenca eram repassados para algumas regiões do Brasil, em especial o estado do Mato Grosso, oriundos de sua criação sem lhe dar o devido crédito da procedência dos filhotes e como real dono do Encrenca.

Ao Sr. Renato, pioneiro e visionário em sua escolha, é finalmente conferido o mérito por ter iniciado a saga reprodutiva daquele que, entre muitas transições, escreveu seu nome nas páginas mais nobres da história dos curiós brasileiros. E, assim, entre o eco de um canto e a memória de uma confusão, permanece viva a lenda do curió Encrenca Velho, graças aos muitos criadores do Brasil, e em especial os Srs. Renato, Júnior e Gilson.

Escrito por João Júnior, baseado em vídeos e relatos de amigos criadores.

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