Aos Amigos da SERCA e de todo Brasil, é com imenso prazer que venho por meio desta matéria, relatar os critérios adotados nos julgamentos sob minha responsabilidade.
Apesar de existirem três linhas de canto: Ana Dias, Patrício e Xodó, a preferência dos curioseiros recai para a linha Ana Dias, que tem duas modalidades: samaritá no primeiro canto e samaritá no segundo canto. E é esta última que predomina nos torneios.
Trabalhar como juiz num torneio é algo que requer acima de tudo, muita responsabilidade e concentração. A utilização de critérios e parâmetros é fundamental.
O primeiro item que me chama a atenção num julgamento de canto é a voz do curió, que deve ser macia e soar em tom mediano. Posteriormente, vou observando a melodia, a colocação e a extensão das notas. Vale ressaltar que tem curió que coloca todas as notas, porém, estas são curtas ou até espremidas e, logicamente, um curió que tem notas extensas é favoravelmente diferenciado, assim como um curió que faz a virada de canto e arremate com três e ou quatro batidas de praia.
Em relação ao andamento de canto, o ideal é o moderado. Tem curió que faz tudo certo, porém, tem andamento muito rápido ou muito lento a ponto de comprometer a melodia do canto.
A repetição entra na pontuação do julgamento, porém, um curió, cujo principal atrativo seja a repetição, não pode ter nota melhor do que um curió que não repete, mas que tenha boa voz, colocação correta e notas alongadas, bom andamento, virada de canto com três, quatro ou mais notas de batidas de praia. Há vários torneios em que, o primeiro colocado sem repetição tem nota superior ao primeiro colocado com repetição e muitas das vezes, a diferença é significativa. O ideal é o que todos sonham, desejam e admiram: o curió que faz tudo certo e que ainda repete canto. Infelizmente, existem poucos.
Em relação aos defeitos, tenho duas análises. Defeitos e deficiências.
Defeitos são inaceitáveis para a categoria Praia Grande Clássico: aberturas, notas estranhas, quim quim tói, chamadas e pialados estranhos etc. Nota-se que alguns curiós que colocam inclusive os defeitos no canto, o que os tornam gravíssimos a ponto de serem colocados como fora de prova. Quando os defeitos são emitidos na rasgada, continuam sendo defeitos, porém com menor extensão de gravidade.
As deficiências, logicamente têm peso negativo no julgamento, entretanto não devem ser tratadas como defeitos. A falha de uma ou outra nota veja bem, eu disse uma ou outra nota, cortes de canto, discreta mudança de andamento de canto; saliento que a mudança acentuada e frequente no andamento de canto poderá ser caracterizada como defeito.
No início deste relato, eu menciono que trabalhar como juiz num torneio é algo que requer responsabilidade total e eu, particularmente, me comprometo com a responsabilidade a ponto de, na véspera do torneio, descansar o mais cedo possível, para no domingo estar com os reflexos 100% e preparado para ouvir os cinco minutos de direito de cada pássaro. Além da ética, deve-se esquecer quem é o dono do pássaro, julgamentos anteriores, ter ouvido o curió em véspera de torneio ou mesmo no dia, antes do início do mesmo, em resumo, é uma nova situação e os 5 minutos oficiais de apresentação são os válidos para a conceituação.
A minha busca principal, como colaborador atuando como juiz é ser justo e ter a convicção de que em todos os aspectos analisados o melhor venceu.
Gostaria de ressaltar que, apesar de vencer um torneio, nem sempre o curió é extraordinário como muitos de seus proprietários pregam, depende muito do nível dos torneios. É importante para coibir o falso marketing observar a nota recebida pelo pássaro a qual eu tenho o hábito de divulgá-la em alto e bom som quando dou a classificação final do torneio e inclusive coloco a nota dada ao lado do nome do pássaro classificado. Não é anormal um curió, num torneio ser classificado em 1º lugar e outro nem sequer obter classificação. Por isso, é de fundamental importância observar a classificação associada à nota que o pássaro recebeu.
É condição “sine quo non” que os proprietários que apresentam seus pássaros em torneios, façam o possível para acompanhar a apresentação de todos a fim de tecer comparações com o seu curió e os demais concorrentes. É necessário que os proprietários de curiós participantes invistam no conhecimento do canto e não ficar atrelado somente à paixão por seu pássaro. Ele deve amá-lo sempre, porém, conhecendo o canto, ele próprio vai saber se seu pássaro cantou dentro do padrão a que ele o submeteu a julgamento. Com os devidos conhecimentos, ele próprio vai poder discernir o julgamento do juiz.
Parabenizo à SERCA pela iniciativa deste fabuloso Curso para Juízes de Canto de Curió que será ministrado pelo catedrático Mestre Olívio Nishiura!
Agradeço a oportunidade e coloco-me à disposição sempre que necessário!
Um grande abraço a todos!
Atenciosamente,
Paulo Martinez (in memorian)